28.6.17

Fugir da ilusão com ironia





Tá sorrindo de mim
Porque me viu sorrindo
Mas agora estou fugindo
De tudo que a ilusão me deu
Pois da minha vida
Quem sabe sou eu

O que é que eu posso fazer
Se a esperança não quer
Se afastar do meu peito
Se a consciência me diz
Que o meu direito é ser feliz
Daí então vou sorrir da ironia
Vou saber que todo dia
Não é igual a outro dia



Uma mulher fala

Sim, vai pedir-me que fique, e o afague, sei lá, talvez que morra com ele, tomando os dois um tubo de comprimidos. É homem para isso. Cheira a desespero a quilómetros de distância. Mas volta-se para a janela enquanto me visto, e então só penso em desaparecer, abandonar esta criatura atacada pela lepra, este homem que porventura eu salvaria, se houvesse em mim mais força e determinação ou mais doçura ou uma piedade maior. Porque é um ser minado, destruído. Ainda vivo apenas para pedir socorro. Vou junto dele, toco-lhe no braço, beijo-o na boca. Um momento apodera-se de mim a vertigem da misericórdia: salvá-lo, salvá-lo! Mas eu própria estou cansada, farta das pessoas, os falsos enigmas, as noites em que entro e saio da cama de homens desesperados. Mas este homem perturba-me. Poderia amá-lo, erguê-lo da sua dolorosa confusão, colocá-lo numa dignidade de que, é evidente, perdeu o sentido. Agita-se de um lado para outro com as grandes mãos batendo contra as pernas, magro e cheio de uma fome terrível. Fome desta mulher que chega cheirando à cidade nocturna. Eu poderia entrar, agarrar-me a ele, dizer-lhe assim: aqui estou. Ele é ridículo, ridículo. Com a sua música, os olhos falsamente frios, o seu resguardo mudo. Uma parte de mim mesma resiste, a parte mais clara e isenta, a mais implacável, mas também porventura a mais justa. É um inimigo. Estes homens esbulham-nos. Exploram a fonte maternal de que somos dotadas, ficam ali sugando o nosso leite, e deixam-nos completamente vazias. Raça de exploradores. Mergulham a cabeça entre os nossos seios brancos e somos obrigadas a acariciá-los em silêncio, enquanto de olhos cerrados, através de uma sumptuosa orgia de recordações e contradições, compõem a sua paz interior, enquanto se recuperam, eles, deixando-nos exaustas. Então dizem: os teus seios. Ou: o teu cabelo. Miserável. Mas estremeço. Cegueira maternal, furiosa força de doçura que me empurra para o homem, para a sua perpétua e louca orfandade. Eu poderia fechar os olhos, avançar por esses equívocos terrenos, chegar lá, chegar lá. E esse espírito abria-se, reorganizava-se — o espírito do último homem. Queres um cigarro? — pergunta ele. Aceito. Acende-mo com gentileza, embora se pudesse esperar, devido a toda esta tensão, que simplesmente me atirasse o maço de cigarros e a caixa de fósforos. Pretende ser distantemente gentil, mas a mão treme-lhe quando me estende os cigarros. Quer dar-se, dar-se para lá de qualquer expressão inóspita, da teoria masculina da força e do poder. E então ocupo-me do meu corpo. Penteio-me, calço as meias, ponho bâton. O homem folheia um livro. Coloca um disco no pick-up. E quando se vira, talvez para dizer: por favor, fica — eu levanto a cabeça e pergunto: já deixou de chover?


Herberto Helder
«Duas pessoas», Passos em volta




19.6.17

Nostalgia da actualidade

A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível — minha actualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.

Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.



16.6.17

Agustina Bessa-Luís: Pessoa e amor

O sucesso da obra de Fernando Pessoa radica-se no vazio afectivo que a caracteriza. Não que fosse um homem destituído de desejos e considerandos que os perfilham. Mas está, como toda uma geração que o lê, ferido de certa irrealidade quanto ao amor, que começa pela admiração de si próprio, pela honra de ter nascido de mãe real e certa.
Um dia, uma mulher que o conheceu, no meio dos seus contemporâneos mais festivos e fazedores de blagues, disse-me: «Eu não gostava dele. Era sem graça.» O retrato que Almada traçou explica um pouco esse lado taciturno, severo mesmo, asceta quase. «Amo com o olhar, e não com a fantasia.» Não tem fantasmas a enriquecer-lhe o comportamento; a alma monótona que ele supõe em toda a gente é assim porque ele a não pode interessar e comover. O amor não é função. É exactamente o que Pessoa não concebe: viver com outra alma que não seja a dele. Pois que é amar senão inventar-se a gente noutros gostos e vontades? Perder o sentimento de existir e ser com delícia a condição de outro, com seus erros que nos convencem mais do que a perfeição?


Agustina Bessa-Luís, Dicionário imperfeito



13.6.17

Ainda num dos melhores livros de poesia portuguesa do século XXI

(…)

Não te curves sobre o triunfo dos outros,
mas sim sobre o teu fracasso.

(…)

1, Gonçalo M. Tavares


Não te curves como se as vitórias fossem importantes, como se não fôssemos mortais, condenados a perder. Curva-te de outro modo, menos sabujo ou invejoso, repara, pois quando te curvas sobre o teu fracasso estás a digeri-lo e a fazer-te, a perceber melhor como usas os braços e diriges a vontade, como te levantas depois de cada dor ou descanso. Que nenhum fracasso seja desculpa para abdicares de te fazeres. E não sejas mesquinho a ponto de não te perdoares.





12.6.17

O facto

(…)

Tens cinco dias para escutar os eruditos,
mas dispensas dois anos a uma certa mulher
para provar que te ama.
Não há equilíbrio entre as palavras inteligentes
e os lábios de uma mulher; a verdade e os raciocínios
são dispensáveis.

(…)
1, Gonçalo M. Tavares


A intimidade são as 24 horas do dia. Não saímos de dentro nem para pescar. Nunca estivemos fora para irmos para dentro. Quando sofremos somos a nossa dor, o mundo escapa-se a galope. Sentirmo-nos é tudo, era bom que não estivéssemos tão próximos. Entre os lábios e os raciocínios, escolhemos os lábios porque queremos sentir mais, queremo-nos esquecer que seja por um bocado, o mundo é uma equação impenetrável enquanto sofremos. E porque queremos mais força. O amante é imortal. Que nenhum filho deseje, demasiado cedo, ser feliz.



5.6.17

Corpo de Deus

Um passo antes do clímax, um passo antes da revolução, um passo antes do que se chama amor. Um passo antes de minha vida — que, por uma espécie de forte íman ao contrário, eu não transformava em vida; e também por uma vontade de ordem. Há um mau-gosto na desordem de viver. E mesmo eu nem saberia, se tivesse desejado, transformar esse passo latente em passo real. Pelo prazer por uma coesão harmoniosa, pelo prazer avaro e permanentemente promissor de ter mas não gastar — eu não precisava do clímax ou da revolução ou de mais do que o pré-amor, que é tão mais feliz que amor. A promessa me bastava? Uma promessa me bastava.

Clarice Lispector, A paixão segundo G. H.



27.5.17

Com calma, Excelência


- “Estar atento a ficções é um prazer que só aqueles que não têm inimigos nas proximidades podem usufruir.” 
- Como?
- Li isso num livro bom, tem de estar certo.
- Ter amigos por perto permite-nos ter acesso a ficções.
- Pois claro.
- Isso significa que quem tem inimigos nas proximidades está mais próximo da verdade. É isso, Excelência?
- Então é melhor ter inimigos, não, do que ter ficções?
- Olhando por esse prisma, talvez sim.
- Perto de quem está preparado para nos magoar, de quem nos inferniza, nos domina o pensamento, perto dessas pessoas, estaremos mais perto da verdade, é isso?
- Certo, e perto de quem nos ajuda, perto desses, estaremos no território da mentira.
- Exactamente.
- Em paz, portanto, estamos condenados à idiotia?
- Hmm, se calhar não, se calhar isso já é exagerar um bocado.
- É provável, sim. Pelo menos, em paz temos mais hipóteses de obter prazer.
- Isso sim, parece-me.
- E em guerra, o sofrimento.
- Exactamente.
- Portanto, o sofrimento aproxima-nos da verdade, não?
- Parece-me que sim.
- Ai, para que foi essa estalada?, foi muito violenta!
- Para aproximá-lo da verdade, meu caro. Não está a olhar para o mundo com outros olhos agora?
- De facto, sim, mas de um modo diferente daquele que por certo esperava, pois quase não vejo nada.
- (...)
- Agora já estou melhor, podemos avançar.
- Avançar rapidamente?
- Não, mais devagar, por favor.
- Ok. Portanto, vê Vossa Excelência que o prazer é associado a ficções, a mentiras.
- Logo, a verdade é sofrimento, isso?
- Mais ou menos, como está a sentir neste momento.
- A frase continua: “é um direito oferecido pela civilização pacífica.”
- Os bárbaros, esses sim, eram sábios, estavam próximos da verdade.
- Acha que sim, Excelência?
- Pois sim, pois claro.
- Queremos a civilização para nos rodearmos de mentiras e de amigos, eis em síntese.
- Vamos com calma, caro senhor, vamos com calma.



23.5.17

Arte poética


TRIBUTO A J.G.ROSA


Passarinho parou de cantar.
Essa é apenas uma informação.
Passarinho desapareceu de cantar.
Esse é um verso de J.G. Rosa.
Desapareceu de cantar é uma graça verbal.
Poesia é uma graça verbal.

Manoel de Barros
Tratado geral das grandezas do ínfimo


21.5.17

"A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares: um novo mundo começa




Heteronomia temático-estilística e território textual

O primeiro livro da série Mitologias é A mulher-sem-cabeça e o homem-do-mau-olhado. Mais um mundo que compõe a “heteronomia temático-estilística” (expressão de Luís Mourão, num artigo da revista Diacrítica) definidora do território textual de Gonçalo M. Tavares. Um caso singularíssimo na Literatura Portuguesa de um autor que cria mundos e trabalha os seus temas e motivos segundo a atmosfera de cada mundo e com as características da linguagem que o configuram. Cada série é um Tavares, não há uma voz autoral atravessando todos os textos. A riqueza deste território textual está na diversidade, que materializa o entusiasmo de escrever avançando pelo desconhecido. De escrever errando e cultivando o informe, um modo de não cortar o fluxo do desejo. Um território textual que cresce na proporção da proliferação das suas séries e muitas obras de arte e múltiplos estudos a que dá origem. Em Breves notas sobre literatura-Bloom, um livro da série Enciclopédia cuja primeira edição teve a chancela da Periscopi, uma editora catalã, o autor assinala que “o território de uma literatura é o espaço para onde esta literatura empurra” (p. 90). Neste sentido, “um verso potente de três palavras ocupa mais território do que seis volumes de um estudo enfadonho” (p. 90). Há mais caminho a percorrer num bom verso curto ou numa frase estranha e extraordinária do que num estudo longo e entediante. Os textos literários potentes são os que instigam a criação de outros textos, danças, quadros, filmes, peças de teatro.


Leis da Física, nomes, literatura, informação e explicações

É cedo para compreendermos toda a configuração deste novo mundo, Mitologias. Mas podemos falar de alguns aspetos.

Trata-se de um mundo com leis físicas diferentes do mundo tal como o conhecemos. O corpo de uma mulher sem cabeça está vivo, e até a cabeça, movendo-se ambas as partes autonomamente. Uma ficção significativa para pensarmos algumas questões identitárias: onde está aquela mulher, no seu corpo ou na sua cabeça? Segundo os seus filhos, está no corpo: “O mais velho insulta a cabeça da mãe; o do meio cospe-lhe, o mais novo dá-lhe um pontapé” (p. 12). A cabeça não é mais importante do que o resto do corpo, nem o rosto é a única parte do corpo – uma parte especialmente convulsa, sempre em movimento – que nos distingue. Em O Bairro também já estávamos num mundo à parte, mas de Mitologias não se excluiu a morte, pois as suas personagens sofrem como os mortais. Mitologias não é uma investigação divertida da especialização humana em fugir. Um mundo diferente, duro, fantástico, mas não maravilhoso, com algumas histórias que lembram o mundo terrífico e entusiasmante de Trilogia da vida de Pasolini.

Outro aspeto importante deste mundo consiste no facto de as personagens não serem, na maioria dos casos, reconhecidas por um nome próprio, mas por uma característica ou um comportamento que as singulariza. A exceção são as cinco crianças, que têm os nomes dos filhos de Nicolau II. O facto de não ter cabeça identifica uma mulher; um homem é definido pelo mau-olhado que os outros lhe reconhecem. Estes são os protagonistas deste romance, ou novela extensa, ou reunião de contos. Mas podem tornar-se personagens secundárias em livros seguintes desta série, nos quais ganham protagonismo as personagens secundárias de A mulher-sem-cabeça e o homem-do-mau-olhado. Não sabemos em que espaço e em que tempo decorre a ação. Isto indica, digamo-lo de modo rápido, que o fundamental neste território textual é investigar o ser humano, cujo comportamento não varia significativamente segundo coordenadas espácio-temporais.

Devemos falar da linguagem. Mais sóbria e concisa do que habitual, com poucos adjetivos, poucos elementos ornamentais, com as repetições sintáticas e lexicais de uma litania ou de um sortilégio. A narração centra-se na ação, o que potencia leituras do texto e devolve a literatura à literatura, afastando-a da esfera informativa, estruturante da mundividência contemporânea. Este pode ser um dos modos de ler a epígrafe final do texto, extraída de “O narrador”, ensaio de Walter Benjamin: “Todas as manhãs somos informados sobre o que de novo acontece à superfície da Terra. E no entanto somos cada vez mais pobres de histórias de espanto. Isso deve-se ao facto de nenhum acontecimento chegar até nós sem estar já impregnado de uma série de explicações”. A mulher-sem-cabeça e o Homem-do-mau-olhado é uma narrativa que pouco explica e expõe os eventos sem julgamentos nem apresentação das suas possíveis causas, estimulando deste modo a imaginação do leitor. O contrário dos eventos descritos em jornais e televisões, que se mantêm na atualidade até serem esclarecidos totalmente os seus efeitos e as suas causas. Os órgãos informativos fomentam uma espécie de febre explicativa que anula o espanto. Sentimo-nos insatisfeitos quando algo não está absolutamente claro. Queremos o consolo da explicação, o fim do desassossego. Preferimos até, como observou Nietzsche em Crepúsculo dos ídolos, uma “explicação qualquer (..) à ausência de explicação”. Quando se torna claro que, afinal, nada se esclarece por completo, ficamos algo desiludidos. O fim da procura da clareza e da verdade é, muitas vezes, o nojo e a desilusão, como diz com humor este verso de Manoel de Barros: “As coisas muito claras me noturnam”. As explicações são a tentativa infrutífera de cessar o espanto e, assim, de provocar o tédio. A literatura vive da inquietação própria da ausência de explicações. Falar do fim do espanto ajuda a compreender as causas da melancolia contemporânea. Não explicar tudo consegue-se com um estilo depurado, árido, como começávamos por dizer neste ponto. É o não querer avançar com explicações filosóficas ou psicológicas para tudo o que as personagens fazem ou pensam que permite que o texto literário conserve a sua força, não se gastando no presente como acontece com a informação. É a aridez narrativa, a ausência de esclarecimentos e julgamentos, que suscitam “admiração e reflexão”, como observou Benjamin no ensaio citado. Aridez que, de certo modo, acelera a narração, ao cingi-la à ação. Uma velocidade diferente daquela que encontramos em animalescos e Canções mexicanas, obras constituídas por ficções narradas de modo embriagante e perverso com cortes, lacerações e rupturas (ao estilo de Um copo de cólera de Raduan Nassar). Neste novo livro de Gonçalo M. Tavares, encontramos uma espécie de “narração-comboio”, avancemos com o termo, centrada na ação, veloz, como o comboio que enlouquecia as pessoas que nele viajavam: “há coisas que não se vêem porque estão longe, há outras que não se entendem porque passam demasiado rápido” (p. 102). Notemos que esta rapidez narrativa acaba também por deixar pouca margem à ironia, habitual nos textos do autor. Pois a ironia é um modo de julgar os eventos.


Mitologias do século XXI

Mitologias revisita criticamente alguns mitos ou elementos mitológicos importantes na Europa. Não apenas os oriundos da tradição greco-latina, mas também de outros tempos e latitudes. Mitologias é um título suficientemente elástico para poder incorporar referências filosóficas e civilizacionais exteriores à tradição clássica. O primeiro elemento mitológico revisitado é o Labirinto. Fala-se da Revolução, que ganhou, em 1789, genericamente, o significado e o simbolismo que hoje possui. Fala-se do gigante – homem com 2,35 metros – que a comanda. Existe um Homem-do-Mau-Olhado perseguido pela comunidade, como tem acontecido durante séculos, de um modo mais ou menos violento. Discute-se a urgência moderna de mais velocidade, que fez com que o ser humano desenvolvesse comboios ultrarrápidos. Da embriaguez – enlouquecedora – que a velocidade provoca. Da necessidade que alguns humanos, nesta ficção, sentiram de inventar o cinema e máquinas voadoras para fugir da Revolução. Aborda-se a Psiquiatria e os eletrochoques, a lobotomia, a invenção de patologias, a obsessão com o comportamento em linha reta, sem desvios, normal. Uma das personagens deste mundo louco é Charcot, criador de uma maravilhosa máquina que faz lobotomias (uma dentre as várias anacronias que reconhecemos na obra). Algumas personagens visitam a casa-das-máquinas-da-história, pois a História tem um motor, como se os eventos históricos fossem produzidos com a regularidade de um mecanismo. A máquina é, talvez, a mitologia que mais peso tem na economia diegética da obra (um motivo aliás recorrente no território textual de Gonçalo M. Tavares). A Revolução matava todos aqueles que tinham esse comportamento tão humano como tremer, sobretudo porque, por mais que o tentemos domesticar, o corpo é imprevisível. A nossa vontade de controlo e previsibilidade, em resposta à qual construímos tantas máquinas, termina no corpo.


A cada um o seu O-kee-pa

Não havendo espaço para falar de todas as mitologias, centremo-nos no destino do Homem-do-mau-olhado. Ele era acusado de causar impotência àqueles para quem olhava, até mesmo às máquinas para as quais olhava. Foi finalmente preso. Os juízes acusaram-no, estando ele de costas para eles, como se fazia “às antigas bruxas” (p. 133). A pena consistia em cegá-lo, mas antes disso quiseram castigá-lo, submetendo-o a um ritual de iniciação de uma tribo índia chamado O-kee-pa. Este ritual consistia (como se refere num parágrafo em itálico, provavelmente uma citação de Peter Sloterdijk) em retalhar as costas e o peito do “futuro guerreiro” (p. 136) com uma “faca de serrilha”, nos quais se enfiavam “espetos de madeira”, aos quais se uniam “correias fortes presas à trave da tenda, o que permitia içar do chão o iniciado, a cujas pernas eram ligados pesos que aumentavam a sua agonia” (idem). Este ritual sádico não terminava aqui: “Depois o prisioneiro era feito girar até perder totalmente a consciência” (idem). O corpo do Homem-do-mau-olhado, como o do iniciado índio, deveria resistir à força que puxa para cima e aos pesos que atraem para baixo: “Se o Homem-do-mau-olhado resistir a estas duas forças ao mesmo tempo, merece ser aceite pelos outros homens como um dos seus” (idem). Talvez viver seja um pouco isto: resistir aos pesos, às desgraças, que puxam para baixo, ao mesmo tempo que devemos resistir às fugas do mundo que nos projetam para o alto, que, no limite, nos fazem planar em vez de existir. Viver é procurar um equilíbrio entre estas duas forças, mantendo ativa a lucidez e vivo o desejo. O Homem-do-mau-olhado sobrevive a esta tortura, e ainda a uma outra, que consistia em correr em círculos, até à exaustão, com os pulsos presos a cordas ligadas a uma estaca de madeira, “exactamente como se faz a um cavalo que se quer domar” (p. 139). Estes rituais visam domesticar o instintivo e forte em cada um. O Homem-do-mau-olhado sucumbe, “está domado, sem consciência, com feridas por todo o corpo” (idem). Depois da tortura, o Homem-do-mau-olhado, cego, amansa, casa e tem filhos. Podemos ler este episódio como uma parte da investigação de longo curso levada a cabo no território textual de Gonçalo M. Tavares sobre a perversidade dos mecanismos aperfeiçoadores do humano.


Publicado no ionline


18.5.17


Não era porque o fim de milénio fosse propício ao apocalipse. É-o o adolescente, chamado a viver, esperando força para sempre, percebendo que o mundo não é o sábado dos sábados, nem claro e previsível. Ele só quer um pouco de ordem e paz. Mas a vida não aceita intimidade excessiva: se muito próximos, não conseguimos ver; se muito optimistas, susceptíveis a quedas aparatosas. Depois é escolher os modos de dirigir a desilusão, com mais ou menos calma, mais ou menos ética.