13.12.17

Incorrigivelmente plural, frio e rosas

NEVE

O quarto, de repente opulento, e da grande janela
Brotavam neve e rosas contra ele,
Em silêncio, colaterais e incompatíveis:
O mundo é mais repentino do que o imaginamos.

O mundo é mais louco, muito mais do que o julgamos,
Incorrigivelmente plural. Descasco e parto em gomos
Uma tangerina e cuspo os caroços, sinto
A bebedeira de as coisas serem várias.

E as chamas do fogo, com um barulho fervilhante, porque o mundo
É mais desprezível e alegre do que supomos -
na língua, nos olhos, nas orelhas, nas palmas da mão -
Há mais do que vidro entre a neve e as rosas desmedidas.

Louis MacNeice, Estradas secundárias. Doze poetas irlandeses, traição de Hugo Pinto Santos



30.11.17

O último poema

Há doenças piores que as doenças, 
Há dores que não doem, nem na alma 
Mas que são dolorosas mais que as outras. 
Há angústias sonhadas mais reais 
Que as que a vida nos traz, há sensações 
Sentidas só com imaginá-las 
Que são mais nossas do que a própria vida. 
Há tanta coisa que, sem existir, 
Existe, existe demoradamente, 
E demoradamente é nossa e nós... 
Por sobre o verde turvo do amplo rio 
Os circunflexos brancos das gaivotas... 
Por sobre a alma o adejar inútil 
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa


28.10.17

Decência e deceção

O sol nasce e põe-se, vêm dias claros, andam pelas ruas carrinhos de bebé, estamos a escrever em Fevereiro de 1928.
Por Fevereiro adentro Franz Biberkopf mete-se nos copos, tal é a aversão ao mundo, o tédio. Gasta tudo o que tem na bebida, é-lhe indiferente o que virá depois. Bem queria ser decente, mas há p'rái tanto patife, e vagabundo, tanto pulha, por isso Franz Biberkopf não quer ver nem ouvir mais nada deste mundo, e se se tornar um vadio há-de gastar até ao último pfennings do seu dinheiro nos copos.

Alfred Döblin, Berlin Alexanderplatz



3.10.17

Favores de amigo

Como exemplo da maneira correcta de fazer um favor a amigos, o senhor K. narrava a história que se segue. Com um velho árabe vieram ter três jovens e disseram-lhe: "O nosso velho pai morreu. Deixou-nos ficar dezassete camelos e dispôs no testamento que o mais velho deve ficar com metade dos camelos, o do meio com um terço e o mais novo com um nono. Ora nós não conseguimos chegar a acordo sobre a divisão; assume tu a decisão!" O árabe pôs-se a pensar e disse: "Pelo que eu vejo, vocês, para poderem dividir bem, têm um camelo a menos. Eu por mim tenho só um único camelo mas está à vossa disposição. Levem-no e dividam, e tragam-me só o que ficar a mais." Eles agradeceram-lhe este favor de amigo, levaram o camelo e desta vez dividiram os camelos de tal maneira que o mais velho ficou com metade, que são nove camelos, o do meio com um terço, que são seis e o mais novo com um nono, que são dois. Para seu grande espanto, depois de terem retirado para o lado os camelos que eram deles, ficaram com um camelo a mais. Este, foram eles restituí-lo ao velho amigo, renovando os agradecimentos.
O senhor K. apelidava de correcto este favor de amigo, porque não exigia nenhum sacrifício especial.


Bertolt Brecht, Histórias do senhor Keuner



28.9.17

Quem?!

Antes de terminar uma última nota. Que não se confunda: esta não é a biografia de Zenão, mas sim a biografia do tirano responsável pela sua tortura e, por fim, pela sua morte.
O nome? Que importa? Todos os tiranos têm o mesmo nome.

Histórias falsas, Gonçalo M. Tavares


19.9.17

A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer




Deh, vieni alla finestra, o mio tesoro, 
deh, vieni a consolar il pianto mio.
Se neghi a me di dar qualche ristoro,
davanti agli occhi tuoi morir vogl'io.
Tu ch'hai la bocca dolce più che il miele,
tu che il zucchero porti in mezzo al core,
non esser, gioia mia, con me crudele,
lasciati almen veder, mio bell'amore!



8.9.17

Por fim, vê-se sempre que têm alguma coisa a esconder, a saber, o espírito. Um dos meios mais subtis para iludir, pelo menos tanto quanto for possível, e mostrar-se, com sucesso, mais estúpido do que aquilo que se é — o que, na vida comum, é muitas vezes tão precioso como um guarda-chuva —, chama-se exaltação; incluindo tudo o que se relaciona com ela, por exemplo, a virtude. Pois, como diz Galiani, que tinha obrigação de o saber, vertu est enthousiasme.

Nietzsche, Para além do bem e do mal



6.9.17

Mundo renovado, Manoel de Barros

No Pantanal ninguém pode passar régua. Sobremuito quando chove. A régua é existidura de limite. E o Pantanal não tem limites. 

Nos pátios amanhecidos de chuva, sobre excrementos meio derretidos, a surpresa dos cogumelos! Na beira dos ranchos, nos canteiros da horta, no meio das árvores do pomar, seus branquíssimos corpos sem raízes se multiplicam. 

O mundo foi renovado, durante a noite, com as chuvas. Sai garoto pelo pileque com olho de descobrir. Choveu tanto que há ruas de água. Sem placas sem nome sem esquinas. 

Incrível a alegria do capim. E a bagunça dos periquitos! Há um referver de insetos por baixo da casca úmida das mangueiras. 

Alegria é de manhã ter chovido de noite! As chuvas encharcaram tudo. Os baguaris e os caramujos tortos. As chuvas encharcaram o cerrado até os pentelhos. Lagartos espaceiam com olhos de paina. Borboletas desovadas melam. Biguás engolem bagres perplexos. Espinheiro emaranhados guardam por baixo filhotes de pato. Os bulbos das lixeiras estão ensanguentados. E os ventos se vão apodrecer! 

Até as pessoas sem eira nem vaca se alegram. E as éguas irrompem no cio os limites do pátio. Um cheiro de ariticum maduro penetra as crianças. Fugiram dos buracos cheios de água os ofídios lisos. E entraram debaixo dos fogões de lenha. Os meninos descobrem de mudança as formigas-carregadeiras. Cupins constroem seus túneis. E há os bentevis-cartolas nos pirizeiros de asas abertas. 

Um pouco do pasto ficou dentro d´água. Lá longe, em cima da peúva, o ninho do tuiuiú ensopado. Aquele ninho fotogênico cheio de filhotes com frio! 

A pelagem do gado está limpa. A alma do fazendeiro está limpa. O roceiro está alegre na roça, porque sua planta está salva. Pequenos caracóis pregam saliva nas roseiras. E a primavera imatura das araras sobrevoa nossas cabeças com sua voz rachada de verde.




Manoel de Barros
Livro de Pré-Coisas - Roteiro para uma excursão poética no Pantanal



4.9.17

Esquecer

Realmente, não me admirava nada que viesse agora um período em que os homens só tivessem uma ambição: esquecer, só esquecer, dormir, comer, comer, dormir, comer… exactamente como aqui; dormir, comer, jogar às cartas…

Hermann Broch, Os sonâmbulos, volume III

27.8.17

É que vamos de aqui para ali e não chega. Um dia passamos de novo pela casa de infância e compreendemos que estamos sós. Mãe, pai, ninguém responde, só o apelo do que desconhecemos em nós. Passamos demasiado tempo a tentar compreender, e enquanto isso o tempo passa. Porque a força se escoa por algum poro invisível.

Isak observa-se mas não sabe. Olha para trás e não tem resposta, apesar de algum consolo com uma certa imagem. Decide viajar de carro e então sente; se viajasse de avião, seria de outro modo. Pois, e se um dia me tivesse mudado para aqui, tudo teria sido melhor. É terrível não saber, é terrível estar vivo — a calma dá a medida da tua humanidade, tanto quanto a dúvida. E enquanto isso — os jovens admiram. Ingénuos, e ainda a força que transmitem, de quem ainda não sabe que está perdido. Não do lugar de quem sabe o que é a vida, porque ninguém sabe. Um médico e investigador reputado percebe que nada vale a pena, pois as decisões têm sempre morte no seu reverso. Perde-se muito enquanto se ganha qualquer coisa, mas isto é só um homem com medo do seu desejo. Que avança nas sombras em busca dos pais que deviam desejar por nós. Mas nunca se sabe, apenas somos chamados a ser. Encostamo-nos à árvore como quem espera. Olhamos para trás à procura da resposta que não acontece. Uma certa calma das coisas em ordem, mas não sabemos o nosso lugar nelas e tudo parece avançar enquanto avançamos. Mas não: quando paramos, percebemos que muita coisa não se mexeu e que o passado não é um lugar imóvel.




Fotograma de Morangos silvestres de Ingmar Bergman



21.8.17

Experiência, desejo

E Martim compreendeu agora por que seu pai, já pelo fim da vida, dizia teimoso: inexplicável: «sempre consegui o que quis». Sim, de algum modo sempre se conseguia. E eu, que foi que consegui? Consegui a experiência, que é essa coisa para a qual a gente nasce; e a profunda liberdade que está na experiência. Mas experimentar o quê? experimentar essa coisa que nós somos e que vós sois? É verdade que a maior parte do modo de experimentar vem com dor, mas também é verdade que esse é o modo inescapável de se atingir o único ponto máximo, pois tudo tem um ponto máximo, e cada coisa tem uma vez, e depois nos preparamos para a outra vez que será a primeira vez — e se tudo isso é confuso, nisso tudo somos inteiramente amparados pelo que somos, nós que somos o desejo.


Clarice Lispector, A maçã no escuro



9.8.17

Corpo e serenidade, morte e medo

Entre um instante e outro, entre o passado e o futuro, a vaguidão branca do intervalo. Vazio como a distância de um minuto a outro no círculo do relógio. O fundo dos acontecimentos erguendo-se calado e morto, um pouco da eternidade.
Apenas um segundo quieto talvez separando um trecho da vida ao seguinte. Nem um segundo, não pôde contá-lo em tempo, porém longo como uma linha reta infinita. Profundo, vindo de longe — um pássaro negro, um ponto crescendo do horizonte, aproximando-se da consciência como uma bola arremessada do fim para o princípio. E explodindo diante dos olhos perplexos em essência de silêncio. Deixando depois de si o intervalo perfeito como um único som vibrando no ar. Renascer depois, guardar a memória estranha do intervalo, sem saber como misturá-lo à vida. Carregar para sempre o pequeno ponto vazio — deslumbrado e virgem, demasiado fugaz para se deixar desvendar.
Joana sentiu-o enquanto atravessava o pequeno jardim de Lídia, ignorando aonde iria, sabendo apenas que deixava atrás de si tudo o que vivera. Quando fechou o portãozinho, afastou-se de Lídia, de Otávio, e, de novo sozinha em si mesma, caminhava.
Um começo de tempestade acalmara e o ar fresco circulava docemente. Subiu de novo o morro e seu coração ainda batia sem ritmo. Procurava a paz daqueles caminhos àquela hora, entre a tarde e a noite, uma cigarra invisível sussurrando o mesmo canto. Os velhos muros húmidos em ruína, invadidos de heras e trepadeiras sensíveis ao vento. Parou e sem os seus passos ouvia o silêncio mover-se. Só seu corpo perturbava aquela serenidade. Imaginava-a sem sua presença e adivinhava a frescura que deveriam ter aquelas coisas mortas misturadas às outras, fragilmente vivas como no início da criação.
As altas casas fechadas, recolhidas como torres. Chegava-se a um dos casarões por uma longa rua sombria e quieta, o fim do mundo. Apenas junto dele enxergava-se um declive, o nascimento de outra rua e compreendia-se que não era o fim. O casarão baixo e largo, os vidros quebrados, as venezianas cerradas, cobertas de poeira. Conhecia bem aquele jardim onde se misturavam fofos tufos de erva, rosas vermelhas, velhas latas enferrujadas. Sob os jasmineiros em flor encontraria os jornais desbotados, pedaços de madeira húmida de antigos enxertos. Entre as árvores pesadas e envelhecidas os pardais e os pombos beliscando desde sempre o chão. Um passarinho pousava do vôo, passeava pelos arredores até sumir-se numa das moitas. O casarão orgulhoso e doce em seus escombros. Morrer ali. Àquela casa só se podia chegar quando viesse o fim. Morrer naquela terra húmida tão boa para receber um corpo morto. Mas não era morte o que ela queria, tinha medo também.

Perto do coração selvagem, Clarice Lispector



2.8.17

Aquela ironia dos homens de mal

Neste século democrático, aquela espécie de bonomia franca e cordial, que actualmente é tão necessária para sermos amados e respeitados — ou seja, aquilo que nos faculta presentemente o sermos tratados como homens de bem — provoca ao moralista grande vontade de rir. Todos os homens sisudos encontram nisto uma espécie de alívio… a tal ponto aprazível a representação duma comédia!

Nietzsche, A vontade de poder


29.7.17

Grandeza do ínfimo

Mosca dependurada na beira de um ralo —
Acho mais importante que qualquer joia pendente.
Os pequenos invólucros para múmias de passarinhos
que os antigos egípcios faziam
Acho mais importante do que o sarcófago de Tutancâmon.
O homem que deixou a vida por se sentir um esgoto —
Acho mais importante do que uma Usina Nuclear.
Aliás, o cu de uma formiga é também muito mais
importante do que uma Usina Nuclear.
As coisas que não têm dimensões são muito importantes.
Assim, o pássaro tu-you-you é mais importante por seus
pronomes do que por seu tamanho de crescer.
É no ínfimo que eu vejo a exuberância.

Manoel de Barros, «Desejar ser — 10», Livro sobre nada


25.7.17

Depois que se é feliz

O fim de sol tremia lá fora nos galhos verdes. Os pombos ciscavam a terra solta. De quando em quando vinham até à sala de aula a brisa e o silêncio do pátio de recreio. Então tudo ficava mais leve, a voz da professora flutuava como uma bandeira branca.
— E daí em diante ele e toda a família dele foram felizes. — Pausa — as árvores mexeram no quintal, era um dia de verão. — Escrevam em resumo essa história para a próxima aula.
Ainda mergulhadas no conto as crianças moviam-se lentamente, os olhos leves, as bocas satisfeitas.
— O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.
— Repita a pergunta…?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
— Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
— Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? — repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
— Que ideia! Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia! Faça a mesma pergunta com outras palavras…
— Ser feliz é para se conseguir o quê?
A professora enrubesceu — nunca se sabia dizer por que ela avermelhava. Notou toda a turma, mandou-a dispersar para o recreio.
O servente veio chamar a menina para o gabinete. A professora lá se achava:
— Sente-se… Brincou muito?
— Um pouco…
— Que é que você vai ser quando for grande?
— Não sei.
— Bem. Olhe, eu tive também uma ideia — corou.
— Pegue num pedaço de papel, escreva essa pergunta que você me fez hoje e guarde-a durante muito tempo. Quando você for grande leia-a de novo. — Olhou-a. — Quem sabe? Talvez um dia você mesma possa respondê-la de algum modo… — Perdeu o ar sério, corou. — Ou talvez isso não tenha importância e pelo menos você se divertirá com…
— Não.
— Não o quê? — perguntou surpresa a professora.
— Não gosto de me divertir, disse Joana com orgulho.
A professora ficou novamente rosada:
— Bem, vá brincar.
Quando Joana estava à porta em dois pulos, a professora chamou-a de novo, dessa vez corada até o pescoço, os olhos baixos, remexendo papéis sobre a mesa:
— Você não achou esquisito… engraçado eu mandar você escrever a pergunta para guardar?
— Não, disse.
Voltou para o pátio.


Clarice Lispector, Perto do coração selvagem



23.7.17

Sabedoria do viver

Em leve desespero de felicidade olhou o campo e as ervas e as moscas: e tudo se fazia sozinho, tudo tinha a sabedoria do viver. Mas ela — ela não sabia como se fazer.

Clarice Lispector, A maçã no escuro


20.7.17

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele 
para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do
que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
Porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que 
carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
o menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens.
E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.

Manoel de Barros, Livros infantis




15.7.17

2 mil anos depois

Estica-se a mão e alcanca-se. Faz-se força e agarra-se.

Os maus ganham. Os bons perdem porque são bons. Porque perdem, os bons têm uma compensação metafísica, a Verdade.

Os bons sabem melhor do que ninguém o que é ser bom, não resistem a ser superiores, mesmo sabendo que é tudo igual, que somos inseparáveis do nosso pior.

Claro que fazer alguma coisa implica uma certa violência. Os maus fazem coisas. Os delicados emitem juízos, que é uma forma de não fazer e de continuar com medo da sua própria força, porque parece que preferimos ser generosos a ser fortes. Mas não. Nenhum corpo é alegre sendo impotente.

A força é má. Se o mundo fôssemos nós, não seria mundo, mas seria bom. É uma pena que o mundo seja mundo, e é bom continuarmos queixosos e infelizes. O mundo é mau, é feito para os maus, devia ser substituído, está errado.

Também temos culpa por tudo o que devemos a nós próprios quando não fazemos. É a culpa mais comum.

Mas nem sempre se ganha, aliás, acabaremos derrotados e sabemo-lo. Enquanto isso não acontece, temos algumas vitórias mesquinhas, e ainda nos podemos consolar com o espírito, os seus juízos, a maldade dos outros, tão bom. Se os outros isto, os outros aquilo, os outros desaparecessem, no limite, seria bom. Enquanto isso, tempo passa e temos mais razões para continuar desiludidos.

Claro que o delicado esconde uma grosseria, mal controlada, de espírito que não encontra saída, não consegue explicar que as coisas sejam como são. Nunca será claro e as vacas pastam com uma mansidão invejável.

Outros repetirão os mesmos argumentos contra a vida. Desviarão o olhar do que não aceitam, falharão em explicar. A metafísica continuará a ser o consolo dos Napoleões que nunca se levantaram da cama.



8.7.17

Um exactamente entre a metafísica e a vida

Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? E a resposta é: não é só isto, é exactamente isto.

Clarice Lispector, A paixão segundo G. H. 

2.7.17

Criança, calma e beleza

Ninguém está preparado para o massacre. A criança cresce porque lhe prometem a calma. O olho abre-se porque lhe prometem beleza.

1, Gonçalo M. Tavares



É claro que depois há o erro. Não é erro, é só um modo de tirarmos a camisa humana. O modo estranho com que olhamos de novo as mãos. A distância a que as olhamos, como se passageiros frequentes de nós mesmos. A equação falha, os números deixam de acalmar, a desordem insinua-se nas mulheres feias, nos sítios sujos e nas almas sórdidas. Nas mãos, tão desajeitadas e repugnantes. O massacre começa no espelho e prolonga-se quando dás por ti a esperar que os outros sejam doces contigo, e o mundo um céu de delícias onde podes deixar de ser quem és e donde ninguém te pode expulsar. Fomos feitos para a beleza, mas não só, a beleza é a grande mentira que contamos às crianças. Desviamos o olhar daquilo que ameaça. E a calma quando não há beleza, quando as contas não dão certo, é, afinal, a vida depois da infância. Olhar o feio com calma, eis.

Não se trata apenas daquilo que se promete, mas também do prometer em si. Esse prometer que sorve toda a matéria e todo o tempo.



28.6.17

Fugir da ilusão com ironia





Tá sorrindo de mim
Porque me viu sorrindo
Mas agora estou fugindo
De tudo que a ilusão me deu
Pois da minha vida
Quem sabe sou eu

O que é que eu posso fazer
Se a esperança não quer
Se afastar do meu peito
Se a consciência me diz
Que o meu direito é ser feliz
Daí então vou sorrir da ironia
Vou saber que todo dia
Não é igual a outro dia